Feira do Livro

Hoje foi o último dia de feira aqui em Porto Alegre. A Praça da Alfândega, que recebe, desde 1955, livreiros, escritores e leitores, fica repleta de personagens apaixonados por livros. É lindo de ver e estar nesse movimento.

65ª Feira do Livro de Porto Alegre

Eu confesso que tenho frequentado cada vez menos o centro e em época de feira acaba não sendo muito diferente. Seja por falta de tempo ou de energia mesmo, pela correria ou por inventar tantas outras coisas pra fazer, que esta acaba em último plano.

E sempre dói um pouquinho pensar no tanto que eu perco de participar de palestras, lançamentos, conversas entre escritores e tardes de autógrafos.

C’est la vie.

Mas aconteceu que, evitando pegar a estrada no feriado, aproveitamos a folga e ontem fomos conferir um pouquinho dela e nos permitimos sentir o clima dos livreiros. Ah, e mesmo tentando evitar comprar livros, (eu e minha velha promessa de: ou só livros digitais ou nenhum) voltei pra casa com três!!! ❤

Um deles, de poesias, já comecei a ler na hora mesmo! Do José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas. São poesias sobre a infância e tudo que abarca os sentimentos que todos carregamos no peito, seja das memórias que fomos costurando, da saudade que nos visita ao longo da vida… poesias profundamente tocantes, dessas que a gente lê e logo se enxerga, o peito aperta, o olho encharca.

poemas deviam acompanhar cafés ou cafés, poemas.

Aproveitando a tarde ensolarada, fiz o que gosto tanto de fazer quanto o tempo é todo meu: sentei num lugar mais tranquilo e ali mesmo abri algumas páginas e li alguns poemas aleatórios.

Sabem quando a gente sente que o dia fica mais leve?

Depois de flanar por quase todas as bancas, resgatar meus escolhidos, beber alguns cafés (porque nunca é suficiente um só), voltamos pra casa…

Os outros dois livros que trouxe foram os do – também – escritor português Gonçalo M. Tavares. Animalescos e O Torcicologologista, excelência. Gonçalo tem prosa curiosa, uma narrativa muito interessante e uma habilidade para transitar por sua escrita que se destaca do que estou acostumada a ler. Nessas duas leituras ele mescla reflexões sobre a humanidade e suas fragilidades. Filosofia, distopias e aleatoriedades são as promessas. Certamente serão furadores de fila da pilha…

Belezuras que vieram pra casa comigo! ❤

Que a propósito, aumentou mais um tantinho. 😎

E vocês, conseguem aproveitar os eventos literários das cidades de vocês?

Como está a pilha de livros e o ritmo de leitura de vocês?

Escrevências aleatórias

Às vezes eu sinto falta de permitir que as palavras simplesmente fluam dos meus pensamentos para o teclado, do teclado para a tela do computador para finalmente encontrar vocês. Assim, no estado em que estão neste exato momento – as palavras e vocês.

É uma vontade de compartilhar sentimentos que estão ainda muito frescos do transcorrer do dia, da vivências das últimas horas, especialmente quanto calha de terem sido muito, muito intensas. Um dia cheio de pequenos acontecimentos/ aprendizados me faz sempre querer loucamente compartilhar sensações, insights mesmo, que chegam pipocando, querendo saltar da tela!

No final de semana fomos visitar meus pais no interior do RS e sempre que pegamos a estrada eu tenho por hábito levar comigo: o Kindle, um livro querido (não necessariamente algo que já esteja lendo) e a revista Vida Simples – seja pra ler se recém tiver comprado, pra reler as matérias maiores e porque depois sempre deixo ela pra minha mãe se deleitar também com tudo que seus textos trazem de mais bonito pra nossa vida.

E aí que a última edição da Vida Simples trouxe a “coragem” como mote para uma bela conversa sobre nossas escolhas, sobre o que nos faz bem, sobre tudo aquilo que tiramos do automático pra vivenciar de fato, em essência, no presente – que pra quase todos nós requer um ato de coragem sem tamanho. Sair do senso comum, da zona de conforto que nos abraça tão quentinho, do esconderijo que nos protege dos olhares dos outros. Afinal, a gente já faz isso que faz tão bem e faz tanto tempo que a gente faz assim, né?

Não!

É como estávamos conversando, a mãe e eu. Precisamos colocar nossa energia e a energia de tudo a nossa volta em movimento constante, podemos começar pequeninos, com doses homeopáticas na rotina, experimentando um novo hobby. Talvez a gente precise ver pessoas novas, sair mais vezes do casulo. Talvez o trabalho seja exaustivo e nos deixe irritados e tristes ao final de cada dia, talvez seja apenas nosso modo de olhar pra tudo, nosso jeito de conduzir nossas conversas, nosso tempo de ouvir e sermos ouvidos.

Ao mesmo tempo que somos críticos conosco porque conhecemos as nossas limitações, medos e ansiedades, achamos que as pessoas que estão realizando coisas incríveis são mais corajosas

Acima: Trecho da matéria Cultive sua coragem, escrito pela Débora Zanelato para Vida Simples. Quem ainda não leu, recomendo de coração que leia. ❤

Cada um de nós tem seu jeito próprio, super personalizado – a não ser por alguma influência comum dos astros, vai saber – de conduzir a música da nossa jornada, a trilha da nossa história… e essa jornada é feita de eterno observar, aprender, cair, levantar, reaprender, cair, observar, compreender.

Talvez ainda não estejamos prontos, se é que um dia estaremos. Mas já dá pra notar que depois de muito insistir nas quedas, talvez experimentar outras estradas, com mais calma e consciência, observando os pequenos detalhes desse novo caminhar, seja “o caminho”. Bater cabeça só te traz uns galos chatos e doídos.

Eu voto a favor de sempre olhar um pouco pra dentro e depois pra fora, tentando esticar ao máximo e além de onde meus olhos costumam pousar.

E então sim, podemos cuidar de seguir adiante, com coragem, sabendo que cada passo importa e que as plantinhas do vizinho estão tão viçosas agora porque antes, provavelmente, ele afogou ou deixou algumas delas morrerem de sede.

Que a nossa semana seja de calma na alma e coragem pra seguir cada dia com a consciência de quem apura o olhar para dentro primeiro, depois pro horizonte.

Seguimos.

Poesia do Olhar

Nosso olhar tem potência para transformar quase qualquer cena em poesia. O que eu mais gosto nessa minha jornada de apurar o meu olhar é justamente encontrar beleza onde “aparentemente” não há.

Aparentemente.

Isso porque, na pressa, tudo acaba passando meio despercebido. A florzinha que nasce na fenda do muro, a formiga incansável no seu trabalho árduo de coletar, carregar e armazenar alimentos, a caixa de correio já gasta pelo tempo, a senhorinha que toda manhã varre as folhas da frente da casa e doa uns minutinhos do dia pra conversar amenidades com quem por ali caminha.

E esses são os exemplos mais singelos.

O caminho é exercitar o olhar por onde tu passar, mesmo que tu escolha lugares exuberantes, desses que gritam beleza por onde o olho corra, mesmo que tu comece fotografando tua mãe fazendo bolo e teu pai preparando o churrasco de domingo. Há poesia ali também!

E é nesse embalo familiar que numa de minhas férias mais curtas, o pai e a mãe me contaram que havia um lugar pertinho da cidade que eles já haviam estado e que o pôr do sol era muito lindo, fora toda a paisagem ao redor.

O lugar fica no interior de Cachoeira do Sul e é conhecido como Balneário São Lourenço. Lá fica a balsa que atravessa o rio Jacuí naquela altura, levando moradores e visitantes de um lado ao outro da margem e no verão as pessoas costumam passar o dia curtindo a beira do rio.

Lá fomos nós, mesmo com o dia nublado demais da conta e sem o nosso tão desejado por do sol.

Chegamos e fomos direto para um armazém/lancheria cumprimentar alguns conhecidos do meu pai. Segundo ele, ali fazem os melhores pastéis fritos de carne. Pedimos dois bem caprichados pra cada um de nós, enquanto eles preparavam, saímos para explorar a região.

Assim que caminhamos um pouquinho, um guri de mais ou menos uns 15 anos veio até a gente mostrar um dos filhotes de cachorro que ele acabara de ganhar, assim, simplesmente… veio puxando uma conversa e logo parecia que era conhecido de longa data. E fez mais: nos convidou a conhecer o resto da ninhada – vai que a gente se apaixona e adota um também! – diz ele.

Mas não foi só a ninhada que ele nos apresentou, foi praticamente nosso guia, contando da vizinhança, da paixão dele pelo lugar, de como ele gostava de ajudar todo mundo que chegava por ali e mesmo os moradores, sempre envolvido com alguma atividade pra deixar o lugar bonito aos olhos de quem chega. Me apaixonei pela paixão que ele nutre por aquele pedaço de chão. Pela desenvoltura e pela queridice dele com a gente.

Eu fiquei pensando no quanto é importante a gente conhecer de fato as pessoas dos lugares por onde passamos. Eu sou bem envergonhada, mas ando me esforçando pra puxar uma conversa com quem cruza meu caminho de alguma forma. A gente aprende, se surpreende, se transforma um pouquinho a cada experiência assim. Repara.

E fotografar é um exercício bonito demais, me realiza transformar meu olhar em poesia, ainda que não profissionalmente, ainda que a criatividade às vezes fique em segundo plano e eu capture e me sinta mais feliz com cenas cotidianas. A doçura daquilo que é parte do dia a dia das pessoas, registrar esse movimento que faz a gente entender que tudo está conectado de alguma forma, sabem?

Prometi voltar.

Estela sem Deus

“Não há ‘durante’ quando se morre, Estela. Há somente um estar ou não estar mais na vida.”

De volta à casa. Me sentindo feliz demais por trazer meus últimos livros queridos pra cá. Esse eu li há algum tempo e cheguei a postar no antigo blog… consegui resgatar o texto e trazer pra cá. E que bom, porque acho que vocês precisam conhecer! Então pode ir lá buscar teu café e te aprochega que vai valer cada minuto!

Assim como não andava escrevendo, também minhas leituras andaram muy lentas. A fotografia vem ganhando mais e mais espaço na minha vida e os textos realmente acabaram ficando pra trás. Mas quando recebi de presente esse livro, a conexão foi instantânea, comecei a leitura no mesmo dia!

O Estela sem Deus foi escrito por Jeferson Tenório, escritor nascido carioca e de alma porto-alegrense.

“- Estela está neste livro porque precisava existir. Na verdade Estela sempre existiu. […] Eu apenas apurei os ouvidos e descobri sua voz.”

“Estela…” é seu segundo romance e chegou a ter duas outras versões até chegar a esta história e ser definitivamente publicado. Já adianto que valeu cada revisão, porque não poderia ter ficado melhor. A publicação saiu pela Editora Zouk, que é daqui! ❤

Posso começar dizendo que já fui atraída para a leitura desde o título mesmo (Deus ou a falta dele é um tema que me interessa pessoalmente, que tenho muita curiosidade de explorar, em suas diversas facetas) até a capa dramática, em preto e branco, repleta de pedras e a espuma da água do mar encontrando-as – essa cena me inquietou de tal forma, como se o que eu enxergasse ali fossem órgãos, um coração humano, fragmentos de várias vidas. Não sei até onde isso é uma grande viagem da minha cabeça, mas me detive por bons minutos olhando e tentando compreender o que meus olhos viam e meu cérebro percebia.

Vamos à história.

Temos Estela, uma menina de 13 anos, entrando na adolescência, com todas as dúvidas pertinentes a idade, a mudança do corpo, a afirmação da passagem de menina para mulher com o “agravante” da cor da pele; Augusto, seu irmão mais novo, ainda pequeno demais para entender o drama da vida; e sua mãe, Irene, que vive das faxinas que faz, mesmo com as mãos em ferida pelas alergias graves aos produtos de limpeza. Temos ainda, logo no início da narrativa, a vó Delfina – uma sábia (ou uma filosofa, segundo as conclusões de Estela) – muitas vezes ela será lembrada durante os capítulos.

A narrativa é toda na voz da pequena-grande Estela, todas as reflexões, mesmo durante os piores momentos, todas as pausas importantes, as questões mais sérias, são levantadas de forma linear e constante. A lógica natural, própria do pensamento infantil, ainda intocado pelo julgamento e pelos vícios do adulto, faz com que a gente pare e repense junto com ela tudo o que vivemos até aqui, tudo pelo que lutamos e o quanto ainda estamos atrasados. Machismo, violência, racismo, indiferença… tudo está exposto, é o dedo na ferida.

Estela narra sua própria história e vai traçando esse panorama triste e tão conhecido da gente, seja de pessoas próximas, de ouvir falar ou por já ter vivido na pele em algum momento – embora ainda muito ignorado – de quem ela é: mulher/ mulher negra/ mulher negra da periferia. E que a vida parece ir levando cada vez mais pro fundo do poço; uma vida inteira remando contra a maré, fazendo com que cada luta seja maior que a outra; exaustivamente brigando pelo direito de simplesmente seguir em frente.

Por vezes até esqueci que quem escreveu é homem. E acho bem importante ressaltar: escritor brasileiro, negro, de universidade pública (formado pioneiramente através das cotas), que luta por representatividade, por presença natural – não imposta ou combinada para cumprir uma “obrigação”- em todos os lugares, principalmente no cenário literário, nos eventos literários, nas prateleiras das livrarias, nas bibliotecas das escolas. Acho que ele vem cumprindo seu papel de forma brilhante.

Retomando a leitura, eu não sei dizer se foi pelo tema tão atual ou pela maneira engajada e ao mesmo tempo tão delicada – acho que não seria bem essa palavra que eu gostaria de usar. Talvez permeada de ternura, tendo em mente que se trata de uma perspectiva narrada pelo olhar de uma criança de 13 anos, mas a leitura fluiu exatamente como toda boa leitura deve fluir e eu precisei ir medindo as páginas para não terminar tão rápido – eu não queria abandonar Estela.

Alguns trechos foram tremendamente chocantes, duros de se ler e digerir, imagine de se viver. E inquietam tanto porque é brutal mesmo viver uma realidade tão crua e que parece sangrar apenas em quem vive na pele a dor da violência diária, seja ela qual for, quando na verdade todas nós sangramos um pouco ao conhecer essas atrocidades.

Outra coisa, fora o fato de todo o Sistema estar contra Estela e sua família: ela sonha em se tornar filosofa, embora nem saiba direito o que isso significa; ela sonha em estudar e “ser alguém”. E o que ela sabe até agora é que filósofos pensam muito na vida.

Resgatando a doçura dessa leitura, posso dizer que Estela é uma menina que gosta de olhar o céu e pensar na vida. E desconfia muito que sua avó e sua mãe sejam grandes filosofas. Se inspira na força e nas palavras sábias das duas.

“As filósofas são assim: dizem palavras que só vão fazer sentido depois de terem feito certas voltas dentro da gente.”

Como a história se passa entre Porto Alegre e Rio de Janeiro, fica muito fácil imaginar os cenários por onde eles transitam a cada mudança, cada tropeço, cada rasteira da vida que vai levando-os pelo mundo, contando com a boa vontade das pessoas e com um pouquinho de sorte do universo. A humanidade é desumana mas ainda há quem estenda a mão, mesmo que a impressão na maior parte do tempo seja mesmo de total desamparo.

“A gente teve de se acostumar com a vida vindo assim, a galope.”

Cada capítulo, cada queda, cada batalha perdida, cada volta por cima pela metade, cada violência calada, cada tristeza guardada na margem esquerda do coração, cada lágrima que não deságua, cada pequena vitória (um copo de água gelada por favor, seu moço), a primeira menstruação, as primeiras regras distorcidas, o que ninguém ensina.

A liberdade genuína do corpo feminino arrancada pelo machismo, por aquele machismo que nós mulheres, nós mesmas, seja pela educação pautada nesse machismo, no patriarcado, enfim, vamos herdando e repassando eternamente sem perceber onde vamos sempre parar. Estela com toda sua inocência vai nos mostrando tudo que vamos perdendo na jornada de nos tornarmos mulheres. Que força é preciso ter, quanto é preciso desbravar. Destemidamente.

“Minha mãe não perguntou se eu estava com cólicas; parecia apenas preocupada com meu asseio. A menstruação era uma espécie de vergonha com a qual tínhamos de aprender a lidar. Nosso sangue tinha de ser educado para se esconder dos olhos dos homens. […] Pensar no meu sangue me entristecia. Queríamos ser livres. Eu e meu sangue.”

No caminho desse amadurecimento e como ponto central da história ainda entra a religião. A importância que se dá às crenças e como elas moldam ou limitam o comportamento, inclusive reafirmando o machismo cruel de cada “santo” dia. Desde os terreiros de Umbanda até os cultos da igreja e aconselhamentos com o pastor, o que Estela mais se dava conta era das perguntas que se amontoavam em sua cabeça em busca de respostas. Quando mais ela questionava, mais o universo lhe trazia dúvidas. Quanto mais ela crescia, amadurecia e seus hormônios afloravam, mais seus pecados não pareciam pecados, seus erros pareciam tão pequenos diante da maldade do mundo.

“Foi só mais adiante na vida que descobri que Deus também era minha mãe segurando uma faca.”

“Mais tarde eu me daria conta de que eu já estava me tornando uma filósofa porque aprendi a observar. Talvez tenha sido a vida ou mesmo a falta de Deus que me deixou mais atenta.”

Esse romance poderia ter sido escrito por uma mulher, a forte inspiração para Jeferson Tenório ter escrito “Estela sem Deus” ter vindo das vivências da sua própria mãe são um forte indício de que se espelhar e ter empatia (mesmo parecendo tão obvio para alguns) pode dar certo. Ele consegue traduzir em romance praticamente todas as batalhas enfrentadas ainda hoje por nós. Ele teve a sensibilidade de construir uma história triste e forte, real e cotidiana. Cruel e delicada, mostrando a fragilidade de um ser humano que veio ao mundo no corpo de uma mulher e que vai se transformando em uma fortaleza.

Estela representa tantas. Todas. Não só Estela, mas a mãe, a avó, a tia, a amiga da mãe, a vizinha, a prima de Estela, as conhecidas e desconhecidas.

O livro termina e a reflexão ecoa dentro da gente. Uma leitura tocante, dramática, que vai além da ficção, entrando na vida pra ser o tal “agente de mudança”, a chave que precisa ser virada. Leiam. Reflitam e transformem o meio. Juntas somos mais fortes.

PS: Acho que vocês precisam conhecer Estela já. Estela e Jeferson Tenório.

❤ Boas leituras!

Apenas o essencial

Quantas e quantas vezes na vida a gente se perde no caminho. Volta duas casas, desvia a rota e recalcula pra começar tudo do zero. Mais uma vez. E lá vamos nós, mesmo sem entender muito bem como ou porquê.

E juro, eu queria entender porque a gente leva tanto tempo para concluir que certas coisas na vida acontecem justamente porque precisam acontecer, simples assim.

Coisas que tornariam os dias bem mais fáceis de levar se eu tivesse a compreensão ou dimensão de tudo como tenho hoje. E também ter a paciência para esperar pelas respostas no tempo que o universo quer enviá-las pra mim. Fluxo. Mas claro que tem toda aquela história da jornada, então tudo bem se só agora ou só a pouco tempo eu entendi isso…

2019, eu quase quarentona (?) e só agora – na verdade, de alguns anos pra cá – eu entendi o quanto a gente pode se tornar melhor, evoluir mesmo, ao permitir que a vida vá nos mostrando o caminho, placidamente ou aos trancos, nos guiando pela estrada, através daquela tão conhecida – e ignorada – voz que fala baixinho com a gente, sim, a intuição: do literal abrir os ouvidos da alma para escutar com o coração.

Desde muito pequena era comum me perder nas páginas dos livros; de ler mesmo antes de saber ler; escrever mesmo sem entender o que as letras queriam dizer; ou, depois, já mais velha um bocado, compor versos rimados – e algumas vezes sem rima mesmo. A vida adulta engoliu minha vontade de poemar (mas bebo café lendo poesia quase todo santo dia pra deixar minha alma contente) . E sigo escrevendo sempre que dá, sobre o que me traz essa leveza, o que me desanuvia e me permite compreender melhor o outro.

Fui uma criança sem pressa… a que tá sempre nas nuvens, que “não atina pras coisas”. A que adorava lição de casa, a que fazia amizade com as professoras de português e com a bibliotecária da escola – só pra poder pegar emprestado mais livros que o permitido.

Adolescente, terminando o segundo grau (esse tal de ensino médio aí) e o curso técnico, eu era a que deixava o namorado esperando no portão porque simplesmente não notava sua chegada, tão profundamente mergulhada em leituras que estava. E a que atrasava curativos dos meus pacientes durante o estágio (lá pelos meus 16, 17 anos) porque ficava “tempo demais” dando ouvidos aos velhinhos queridos que estavam internados e suas histórias intermináveis: – tu não é psicóloga, não, guria! Bora trabalhar!

E é aí, nesse pontinho quase nevrálgico, que me refiro. E é aí que a vida vai nos levando e a gente vai levando ela de arrasto. A gente briga com uma rotina apressada, com as pessoas apressadas, a gente parece ter que fazer um esforço gigante pra entender que dinheiro não é tudo, que coisas são coisas e tudo que a gente vive hoje de alguma forma outros tantos já viveram também. Mas tudo parece nos levar a consumir, competir, desejar o que o outro está vivendo (mesmo sabendo que no fundo a gente saiba que isso não faz bem.

As alegrias e as dores, as dúvidas, os problemas, os dilemas existências… tudo praticamente já foi vivido em algum momento, hoje, ontem ou há milênios. Nada é novo, nem mesmo o jeito de sentir. Mesmo assim a gente insiste em viver emaranhado nessa “novela” da vida real, que definitivamente não precisa ser vivida dessa forma.

Depois de passar por todas as fases do jogo, a gente vai amadurecendo, conhecendo os processos, aceitando pra doer menos, permitindo abrir mão do controle para que as coisas que pareciam não tão boas à primeira vista entrem na nossa vida e, olha que interessante, a gente se surpreende. Se tu parar bem pra pensar, se tu conseguir apurar teu olhar – um pouquinho que seja – com mais amor pra tudo que acontece ao teu redor, vai entender que no final das contas foi e é melhor assim.

Exatamente desse jeito, percorrendo exatamente esse caminho. Ou tu não estaria lendo meus desanuviamentos nesse instante. E tu passa a entender como o universo funciona e como ele trabalha colaborativamente contigo quando tu resolve que melhor que brigar com tudo é ser parceira das estrelas, da lua e suas fases. Que ouvir aquela voz que sopra no teu ouvido mesmo quando parece estar errada, é o caminho mais tranquilo e que ouvi-la talvez te traga um pouco de paz e até umas boas doses de alegria e aquela sensação de plenitude, sabe… quando tu olha pro nada e pensa: – Uau, está tudo tão calmo aqui dentro! (mesmo que o caos esteja instalado em algum canto ainda).

É assim que vejo a vida hoje. Quase 40 anos e ainda aprendendo, diariamente, a conversar comigo mesma, a respeitar os sinais, as sincronicidades, as pessoas que chegam e vão embora (e seus recados nas entrelinhas dessa passagem).

Eu sei que desanuviando eu me perco no raciocínio 99,9% das vezes e até dou uma misturadinha nos assuntos, mas te digo, se permita um novo olhar sobre a tua vida. Compreender finalmente que os nossos problemas e aquela impressão de que nosso sofrimento é único e que todos os outros são felizes é uma grande bobagem.

Estamos de passagem e se a gente pode escolher como vai ser essa nossa temporada por aqui, porque não fazer desses momentos os melhores que pudermos, né?

O tanto que tu pode carregar é o que tu precisa, apenas. O resto é supérfluo que tira tua energia e tua atenção daquilo que é essencial. E essencial é aquilo tudo que em essência tu precisa pra viver bem contigo.

Espero que, chegando até aqui, tu te sinta mais leve e talvez com uma pequena inquietação. E que no final das contas essa inquietação seja uma pulguinha do bem e que ela te traga LEVEZA.

Ando Lendo – A Infância dos Dias

Antes de qualquer coisa, eu adoraria saber o que vocês andam lendo… Comentem me contando que livro estão lendo e porque escolheram ele! Vou adorar atualizar as minhas listas infinitas de livros pra ler na vida… ❤

Conheci a Laís através dos seus textos repletos de afeto e poesia, publicados na Vida Simples, revista que amo tanto… mas sendo do time das pessoas que tem o afeto na ponta do lápis, não me surpreendeu quando soube que lançaria um livro sobre a infância. Mas não só.

A infância dos dias vem encontrar em nós aquela porção de memória que guardamos e praticamente esquecemos de acessar quando mergulhamos na vida adulta. São tantas responsabilidades, tantas contas pra pagar, tantos compromissos pra comparecer, que nos tornamos os adultos chatos que tanto temíamos e olhávamos curiosos e incrédulos quando crianças – “eu não quero ser adulto nunca, nunquinha, mãe!”

A Laís nos traz pequenas histórias da própria infância mesclados de forma doce e poética com aquela pitada de ficção que não é assim tão, tão distante do que vivenciamos quando pequenos e é impossível não acessar aquele pedacinho de infância que a gente amarrou tão bem e deixou escondido num canto escuro do coração. Me remete um pouco ao sentimento que temos quando a gente vê nossos sobrinhos, filhos ou filhos de amigos – e até mesmo quando observamos com o olhar quase perdido as crianças que cruzam nosso caminho na rua – brincando com algo que a gente curtia muito, correndo pra lá e pra cá, inventando suas próprias estórias e brincadeiras, rindo solto e gostoso e dá aquela dorzinha no peito, de saudade mesmo, do tempo que passou tão rápido e não fomos capazes de pausar.

Eu confesso que viajei com ela em cada capítulo, um belo túnel do tempo direto pra minha própria infância…

Lembrando dos brinquedos que fazia com os parquês que sobraram da casa da vó, com a cama macia dela onde eu mergulhada pra ouvir suas histórias, com os buracos na madeira do assoalho por onde eu espiava com um pouquinho de medo pra ver se os monstros dormiam ali durante o dia.

E o quintal maior que o mundo onde a parreira era o telhado das casas e os lençóis velhos eram o piso e qualquer caixa se transformava em móveis lindos. Ou então os encontros na frente de casa, pra trocar papel de carta e completar a coleção naquelas velhas pastas de capa preta que já nem tinham mais espaço.

O “velho do saco”, que é história contada até hoje… minha prima e eu brincando na madeireira do meu padrinho, entre compensados, montanhas de britas e areia, nos escondendo nos canos gigantes de concreto, ficávamos de tocaia, cuidando aquele senhorzinho corcunda, com um saco enorme pendurado nas costas, que vinha atravessando os eucaliptos e passava, toda tardinha no mesmo horário, “recolhendo crianças teimosas”. Ai de nós.

Quantas e quantas histórias se abriram e saltaram da minha caixinha de memórias degustando esse livro querido debaixo de uma árvore quase florida, numa manhã ensolarada de domingo.

Sabe aquela história que vivo repetindo lá pelo Instagram, pra todo mundo tomar café com poesia, colocar poesia no cotidiano? O livro da Laís entra nesse conselho. Faz bem pra alma. Alimenta e deixa os dias mais bonitos.

Se bobear tu ainda tira aquele velho pega-varetas da gaveta e chama o teu pai pra uma partida rápida antes de terminar o dia!

E essa capa linda, serena, minimalista, texturizada de um jeito que lembra chuva fina de primavera, continuidade, linhas que conduzem e permitem que a gente lembre que tudo está ligado, nossa infância ainda se encontra dentro de nós, alinhada com nosso coração… te permitindo reencontrá-la.

Vai lá resgatar a porção de infância que habita em ti. E boas leituras! ❤