Dica de Leitura: trilha sonora para o fim dos tempos

Trilha sonora para o fim dos tempos: uma valsa literária

Pra ser bem sincera eu nem lembro mais quando foi que comecei essa leitura. Sei que faz tempo, meses certamente, talvez quase um ano.

– E o certo é Google, não Gógol. Você escreve o que quer achar e aperta Enter.

Bom, sei sim… fui lá no Instagram buscar. Foi em Maio de 2018 (dois anos e pouco) e eu já tinha a impressão que devoraria, logo que li as primeiras páginas. Eu acho que posso dizer que ouve constância, embora uma super ultra mega lenta constância. Menos de uma página por dia, talvez. Alguns dias um pouco mais.

Para Kolya. Em caso de emergência!!! Vol. 1

(…) Você não pode dançar uma valsa ao som de uma marcha – disse ela, enquanto cortinas de vapor rodeavam o lago Mercúrio, mas eu lhe ensinei como era possível.

(…) Em quais sonhos a extremidade vazia do universo contém esse eco de vitalidade? Em qual prece o último ser humano não morre sozinho?

Eu comprei na Livraria Cultura daqui de Porto Alegre, lembro de bater o olho na capa e depois no título e sem nem pensar muito, fui direto ao caixa.

E como todo livro comprado assim, num ímpeto, ou a gente devora na hora ou ele vai minguar na estante, empoeirar-se e até se tornar invisível. É bem possível. Foi o caso.

Um muro caiu em outro continente, e logo se dissolveu a nossa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. (…) Pela primeira vez em setenta anos, nossa cidade se viu aberta. (…) O mundo estava girando para o lado errado. Não era hora de se afastar de casa.

Quando as coisas começaram a ficar feias (desgovernos, bem antes da pandemia ainda) achei que o título era cabível ao momento e comecei a ler.

E de fato Marra tem uma narrativa brilhante.

Ele viaja no tempo entre os capítulos mas nos mantém no prumo, de alguma forma. Ele dá grandes voltas costurando tão bem as pontas que a gente sempre acaba se sentindo em casa nessas curvas.

Sinopse:

Nesta coletânea, Marra apresenta uma série de personagens inesquecíveis, cujas vidas se entrelaçam de maneira comovente, imprevisível e incontornável. Nos anos 1930, um artista de Leningrado trabalha para o governo de Stálin como censor, apagando em pinturas e fotografias os traidores do regime soviético. Entre os rostos que ele elimina, está o do próprio irmão, condenado à morte.

Nos dias de hoje, uma historiadora de arte dedica-se a estudar o mistério que se esconde na obra desse censor rebelde, cujos segredos atravessam décadas e fronteiras e confundem-se com a história da Rússia.

Essas e outras trajetórias — como as de uma bailarina e seus descendentes, espiões poloneses, mendigos, uma beldade siberiana e até de um lobo — são unidas por sentimentos de nostalgia, injustiça e desolação retratados com vitalidade em Trilha sonora para o fim dos tempos , a coletânea de contos que consolida Anthony Marra como um dos autores americanos mais promissores do momento.

A leveza da narrativa em forma de contos que se interligam e complementam fazem com que a leitura seja fluida, fácil e agradável. A relação entre irmãos, pai e filho, primeiros amores, guerras e uma fita cassete e um quadro alterado pelos censores é o que dá o tom do convite à trilha sonora (não há música, exceto uma, o som é da vida e de tudo que cabe nela)!

Regimes políticos que impactaram vidas russas de forma permanente desde 1930 (ainda hoje impactam) são o pano de fundo para cada história que a gente vai conhecendo.

E embora só de ouvir falar em tudo que russos e soviéticos passaram, a obra é permeada de cenas bem humoradas e mesmo quando tudo parece desmoronar, há uma certa leveza.

Eu acredito que exatamente isso me fez continuar. Me fez querer saber mais de cada personagem, mergulhar na vida de cada um deles e ansiar pelos prováveis encontros.

Trilha sonora para o fim dos tempos é uma leitura capaz de nos comover, mexer nas nossas entranhas, nas nossas reentrâncias. Nos leva à nossas fugas internas, nossos medos cabidos e descabidos, nossa desconfiança no futuro e nossa falta de coragem (que parece excesso)!

(…), e nossa cidade continua a prosperar sob camadas cada vez mais densas de poluição graças ao empenho dos ambientalistas americanos e europeus em manter limpos os céus acima deles.

Alguns capítulos soam tão profundos, passeiam por tantas gerações, revisitam um tempo que guardamos tão bem escondido na memória; outros, ainda que pareçam nos divertir, beiram à melancolia e à profunda tristeza de existir num mundo onde ter esperança é entrar um barco furado!

Ps: não sou resenhista, sempre fui péssima para resumir livros ou criar fichas de leitura na escola. Não sei filtrar spoilers, acho que um bom livro não se prende à essas « revelações » e vai muito alem de uma expectativa de suspenses e mistérios. Sou desanuviadora, gosto de soltar minhas impressões aqui e ali (aqui no caso anda abandonado, e nem prometo a tal constância, não estou em condições de prometer nada, menos ainda carregando a desrotina de 6 meses de uma pandemia por uma doença sobre a qual muitos nadas sabemos)

A poeira se torna mais densa à medida que me desintegro. As camadas superiores da pele secaram e se desfazem em flocos no ar, e tudo que sou é rosáceo, sensível, cru. É isso? É assim que terminamos? Na cegueira? Em desespero?

Bom domingo e boas leituras, gente!

Feira do Livro

Hoje foi o último dia de feira aqui em Porto Alegre. A Praça da Alfândega, que recebe, desde 1955, livreiros, escritores e leitores, fica repleta de personagens apaixonados por livros. É lindo de ver e estar nesse movimento.

65ª Feira do Livro de Porto Alegre

Eu confesso que tenho frequentado cada vez menos o centro e em época de feira acaba não sendo muito diferente. Seja por falta de tempo ou de energia mesmo, pela correria ou por inventar tantas outras coisas pra fazer, que esta acaba em último plano.

E sempre dói um pouquinho pensar no tanto que eu perco de participar de palestras, lançamentos, conversas entre escritores e tardes de autógrafos.

C’est la vie.

Mas aconteceu que, evitando pegar a estrada no feriado, aproveitamos a folga e ontem fomos conferir um pouquinho dela e nos permitimos sentir o clima dos livreiros. Ah, e mesmo tentando evitar comprar livros, (eu e minha velha promessa de: ou só livros digitais ou nenhum) voltei pra casa com três!!! ❤

Um deles, de poesias, já comecei a ler na hora mesmo! Do José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas. São poesias sobre a infância e tudo que abarca os sentimentos que todos carregamos no peito, seja das memórias que fomos costurando, da saudade que nos visita ao longo da vida… poesias profundamente tocantes, dessas que a gente lê e logo se enxerga, o peito aperta, o olho encharca.

poemas deviam acompanhar cafés ou cafés, poemas.

Aproveitando a tarde ensolarada, fiz o que gosto tanto de fazer quanto o tempo é todo meu: sentei num lugar mais tranquilo e ali mesmo abri algumas páginas e li alguns poemas aleatórios.

Sabem quando a gente sente que o dia fica mais leve?

Depois de flanar por quase todas as bancas, resgatar meus escolhidos, beber alguns cafés (porque nunca é suficiente um só), voltamos pra casa…

Os outros dois livros que trouxe foram os do – também – escritor português Gonçalo M. Tavares. Animalescos e O Torcicologologista, excelência. Gonçalo tem prosa curiosa, uma narrativa muito interessante e uma habilidade para transitar por sua escrita que se destaca do que estou acostumada a ler. Nessas duas leituras ele mescla reflexões sobre a humanidade e suas fragilidades. Filosofia, distopias e aleatoriedades são as promessas. Certamente serão furadores de fila da pilha…

Belezuras que vieram pra casa comigo! ❤

Que a propósito, aumentou mais um tantinho. 😎

E vocês, conseguem aproveitar os eventos literários das cidades de vocês?

Como está a pilha de livros e o ritmo de leitura de vocês?

Escrevências aleatórias

Às vezes eu sinto falta de permitir que as palavras simplesmente fluam dos meus pensamentos para o teclado, do teclado para a tela do computador para finalmente encontrar vocês. Assim, no estado em que estão neste exato momento – as palavras e vocês.

É uma vontade de compartilhar sentimentos que estão ainda muito frescos do transcorrer do dia, da vivências das últimas horas, especialmente quanto calha de terem sido muito, muito intensas. Um dia cheio de pequenos acontecimentos/ aprendizados me faz sempre querer loucamente compartilhar sensações, insights mesmo, que chegam pipocando, querendo saltar da tela!

No final de semana fomos visitar meus pais no interior do RS e sempre que pegamos a estrada eu tenho por hábito levar comigo: o Kindle, um livro querido (não necessariamente algo que já esteja lendo) e a revista Vida Simples – seja pra ler se recém tiver comprado, pra reler as matérias maiores e porque depois sempre deixo ela pra minha mãe se deleitar também com tudo que seus textos trazem de mais bonito pra nossa vida.

E aí que a última edição da Vida Simples trouxe a “coragem” como mote para uma bela conversa sobre nossas escolhas, sobre o que nos faz bem, sobre tudo aquilo que tiramos do automático pra vivenciar de fato, em essência, no presente – que pra quase todos nós requer um ato de coragem sem tamanho. Sair do senso comum, da zona de conforto que nos abraça tão quentinho, do esconderijo que nos protege dos olhares dos outros. Afinal, a gente já faz isso que faz tão bem e faz tanto tempo que a gente faz assim, né?

Não!

É como estávamos conversando, a mãe e eu. Precisamos colocar nossa energia e a energia de tudo a nossa volta em movimento constante, podemos começar pequeninos, com doses homeopáticas na rotina, experimentando um novo hobby. Talvez a gente precise ver pessoas novas, sair mais vezes do casulo. Talvez o trabalho seja exaustivo e nos deixe irritados e tristes ao final de cada dia, talvez seja apenas nosso modo de olhar pra tudo, nosso jeito de conduzir nossas conversas, nosso tempo de ouvir e sermos ouvidos.

Ao mesmo tempo que somos críticos conosco porque conhecemos as nossas limitações, medos e ansiedades, achamos que as pessoas que estão realizando coisas incríveis são mais corajosas

Acima: Trecho da matéria Cultive sua coragem, escrito pela Débora Zanelato para Vida Simples. Quem ainda não leu, recomendo de coração que leia. ❤

Cada um de nós tem seu jeito próprio, super personalizado – a não ser por alguma influência comum dos astros, vai saber – de conduzir a música da nossa jornada, a trilha da nossa história… e essa jornada é feita de eterno observar, aprender, cair, levantar, reaprender, cair, observar, compreender.

Talvez ainda não estejamos prontos, se é que um dia estaremos. Mas já dá pra notar que depois de muito insistir nas quedas, talvez experimentar outras estradas, com mais calma e consciência, observando os pequenos detalhes desse novo caminhar, seja “o caminho”. Bater cabeça só te traz uns galos chatos e doídos.

Eu voto a favor de sempre olhar um pouco pra dentro e depois pra fora, tentando esticar ao máximo e além de onde meus olhos costumam pousar.

E então sim, podemos cuidar de seguir adiante, com coragem, sabendo que cada passo importa e que as plantinhas do vizinho estão tão viçosas agora porque antes, provavelmente, ele afogou ou deixou algumas delas morrerem de sede.

Que a nossa semana seja de calma na alma e coragem pra seguir cada dia com a consciência de quem apura o olhar para dentro primeiro, depois pro horizonte.

Seguimos.